segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Aos seus pés.

Estava eu a enfiar
Cordões nas sapatilhas,
Ansioso por as agradar,
Como se elas não fossem minhas.


Era num compasso cuidado
Que as apertava, delicado
Para que elas corressem milhas,
As minhas, e eu observasse sentado
Extasiado
Pelo andar das minhas sapatilhas.


Entrelaçava-os pelas anilhas
Com carinho e servidão
Para que pisassem milhas
(As minhas)
E eu, esperando, amasse as suas pegadas no chão.


(As minhas)


Uma noite, em suas viagens
Corriam, velozes, o meu caminho
E, ansiosas, sem intenções ou travagens
Pisaram um senhor que morreu, já velhinho.


Fugiram com os seus cordões.


(Os da justiça)
Cuspiram-me na prisão,
E dei-lhes a razão, que a tinham.
Mas fui descalço, indefeso,
Era lá tal o frio, que aos meus pés perdi o peso
E ainda hoje, mortos, se definham.


As sapatilhas e os seus cordões
Lá me foram visitar, aos meus serões
Tive, enfim, que lhes dizer
Que já não tinha pés para novas milhas conhecer.


(As delas)

3 comentários:

Anónimo disse...

O sempre teu tom melancólico nas palavras...Parecem-me bem encadeadas, juntas numa mistura homogénea com um toque que só tu sabes dar.
Bonito (como sempre).
Beijos
Tia S.

Anónimo disse...

As tuas novas sapatilhas sem dúvida que te inspiraram e bem.
Incrivelmente espectacular como já é habitual.Os jogos de palavras..és mestre.

Scarlet Empress disse...

vou-me repetir mais uma vez, mas gosto imenso dos teus textos. gostei imenso