Estava eu a enfiar
Cordões nas sapatilhas,
Ansioso por as agradar,
Como se elas não fossem minhas.
Era num compasso cuidado
Que as apertava, delicado
Para que elas corressem milhas,
As minhas, e eu observasse sentado
Extasiado
Pelo andar das minhas sapatilhas.
Entrelaçava-os pelas anilhas
Com carinho e servidão
Para que pisassem milhas
(As minhas)
E eu, esperando, amasse as suas pegadas no chão.
(As minhas)
Uma noite, em suas viagens
Corriam, velozes, o meu caminho
E, ansiosas, sem intenções ou travagens
Pisaram um senhor que morreu, já velhinho.
Fugiram com os seus cordões.
(Os da justiça)
Cuspiram-me na prisão,
E dei-lhes a razão, que a tinham.
Mas fui descalço, indefeso,
Era lá tal o frio, que aos meus pés perdi o peso
E ainda hoje, mortos, se definham.
As sapatilhas e os seus cordões
Lá me foram visitar, aos meus serões
Tive, enfim, que lhes dizer
Que já não tinha pés para novas milhas conhecer.
(As delas)
3 comentários:
O sempre teu tom melancólico nas palavras...Parecem-me bem encadeadas, juntas numa mistura homogénea com um toque que só tu sabes dar.
Bonito (como sempre).
Beijos
Tia S.
As tuas novas sapatilhas sem dúvida que te inspiraram e bem.
Incrivelmente espectacular como já é habitual.Os jogos de palavras..és mestre.
vou-me repetir mais uma vez, mas gosto imenso dos teus textos. gostei imenso
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