sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Tento ser franco
Mas falho,
Falho sem falhar,
Porque tento ser franco comigo.


Quero ser franco
Mas vejo-me galho,
Contorço a desfolhar
Ao som do vento amigo.


Já não quero ser franco
Sou agora galho
Deitado na terra, a rezar
Que voltes, vento amigo.


Perdão, sonho ser franco,
Franco sendo galho
Frutoso, a olhar
Um galho, no chão, parecido comigo.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Lareira

Partilha-se caldo e pão
À luz do lume brando
Que pelas brasas passa:
Crepita bonacheirão,
Aquece na graça
Do sono que vai soprando.

Dança alegre e corado,
A ver pairar o calor
Avermelhado
Que se embacia no ardor,
Na nostalgia do ar:
Vejo os meus olhos a fechar,
Penosamente,
E ouço-me a sorrir,
A serpentear lentamente
Como o fumo, a subir.

Contam-se histórias
Exóticas, distantes
De aves falantes e árvores errantes
E nelas voo saciado
Por paisagens sem fim
Que exploro, extasiado,
A pairar dentro de mim.

Onde quer que se rume
Também isso partilhamos,
Ao calor do nosso lume:

Cantam-se histórias
E às chamas mil glórias.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Vento

Guias-me, vento,
Para a esquerda
Sem perceber
Que a tua corrida
Se limita a este momento,
Comigo a obedecer:
Na minha perda,
Tu dás a tua vida.

"Esquerda é o caminho,
Recto e a pecar"
Sussurras sem pudor
Nas frinchas frias.
Para ti, que guias,
Flores por tentar.
Para o esquerdino amor,
Um copo de vinho.

Sempre te aninhaste
Nos meus ouvidos
Mas para a esquerda só vou
Se te calar o meu orgulho.
Os sonhos que o teu pecado chorou
Estão agora benzidos,
Mas não vou, enquanto se arraste
Este barulho.

Mas até sob o zumbido,
O teu pecado
Continuo a admirar:
Como tu, violento,
De veludo cinzento,
Voa e promete voar
Aos passos do meu andar.
Como um falcão ferido,
Ou Afrodite sem passado
A tua filha encanta, vento.


(viajemos então para a esquerda, para a verdade, mas sem a tua vontade de uivar em vão.)

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Devaneio vulnerável

Como os meus olhos, desfocada
Te admira a minha pequenez:
Flutuas, magnífica fada
E brilhas, resplandecente, nesse teu trono
De onde sopras o Outono
Que a todos sepulta de palidez.
Menos a ti, harmonia alada.


**


Mas, um dia, colorir-me-ei de desabrochar
No teu jardim outonal,
Haverás de me admirar, de me inspirar, de me escutar
Num teu acaso magistral.
Afagar-me-ás em ti, nesse cabelo aveludado,
Nesses teus fios de vaidade.
Amar-me-ás na tua redoma mais bela
E regarás, radiante, o nosso fado.


E crescerei,
E florescerei..


Serei o dono da promiscuidade
Para nela te ver a errar.
(Ver-te vaguear na tua vaidade
Primaveril, devagar.
Ah, quão verdadeira é a tua vaidade
Que torna vaidoso o meu vulgar!)

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Relevo

Está o mundo
Manchado de montanhas
Para que menosprezemos o fundo
E afamemos
Essa nossa façanha.

(Cada um na sua)

No entanto,
Não achamos para subjugar
Ninguém que lá em baixo rume,
Todos nos ocupamos a olhar
O nada do cimo do nosso cume.

domingo, 11 de novembro de 2007

Dolce Vita

As pessoas passam
Devagar,embaladas
Em vidas apressadas
Com sacos vazios
Que as amassam e misturam
Como fozes e rios:
Todas procuram,
Religiosas, o mesmo mar.
Como eu,
Que corro sentado
A ver-me passar,
Assustado
Com quem me escondeu.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Rancor

Incho de um rancor
Longínquo, anão,
Rancor insecto, popular,
Incho a sugar
O sangue e o rumor
Do gigante roncador:
Dorme na sua respiração
Que me não deixa resignar.


Durmo agora eu, inchado,
Cheio de mim,
Acomodado
Num zumbido de querubim.

(Sorriso mascarado)

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Fome

Padeço da fome que cura
A loucura,
Da fome canibal
Que, apressada, cozinha sem avental
De (fiel) alma madura
E exagero no (escasso) sal.

Sofro da fome que me tempera
E dá sabor à espera
Partilha como amiga, não o centeio mas a espiga
Espiga da (fiel) lembrança
De futuro guloso, de (escassa) esperança.

Corrói, vingativa,
Que no fim não se esquiva
Da dor da justiça
Bêbeda de felicidade, reza desculpa sem missa.

A (fiel) sentença da fome é lida,
Mas esta renasce e esconde toda a (escassa) vida.

(Post Mortem)

(Fiel) fome,
(Escassa) fome.

domingo, 4 de novembro de 2007

Sou a andorinha
Que vive a sonhar
E sonha a voar,
Às voltas.
Sou a andorinha
De santas viagens
A rios sem margens,
Trago os ventos
Para os meus aposentos.
Para que de asas soltas sonhe sem margens.

Sou a andorinha
Das revoltas:
O voo não se adivinha
Mas vê-se que é às voltas.
Às voltas.

sábado, 3 de novembro de 2007

Sono

Adormeço
Com sorriso inesperado
No meu rosto
De cancro humilhado.
Um sorriso de Agosto,
Quente e generoso,
Onde me aqueço com apreço
Do desgosto nervoso
E frio, que me eriça cada pelo.
Mas nunca sequer me tocou
Na medula do degelo,
Na chama incandescente que sou.

Por isso continuo a sorrir,
Uma chama ao vento,
Num arrefecer lento
E assim hei-de partir,
Num hibernante preenchimento.

Rio-me preguiçosamente, e, ofegante, continuo a dormir.