quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

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Passas a pairar
E eu olho sem saber,
Sem se saber se sou eu que olho ou tu que pairas,
Sem saber se és tu no céu a voar
Ou eu no fundo, a arder.
Mas para mim eu olho e em mim pairas.


Danças a harmonia
E eu ouço sem entender
Se és tu que danças ou eu que ouço,
Se coloras a melodia
Ou aos meus ouvidos a fazes parecer.
Mas meu corpo dança quando te ouço.


Irradias a natureza
E eu me perco sem perceber
Se sou eu que me afloro, se o perfume é teu,
Se és tu o odor da beleza
Ou se ela se esvaia ao amanhecer.
Mas desenho teu desabrochar e o perfume dei-to eu.


Nas nuvens agora desfaleces
E eu soluço sem crer
Que cais sem o meu desespero.
Não sei se te deva amparar,
Se de ti me abrigue para te recordar.


Mas a queda é de ambos, como o chão
Que abeira a minha asa à tua mão.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Vence-me a vontade da sorte
Que me vinga da que vomito,
Venero-a e a evito:
Pois que anseio ser eu a vedeta da minha morte,
Que ma louvem a mim, não à minha sorte.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Predispões-te a ajudar como uma viúva de um ex-combatente se predispõe a ajudar no Vietname. De facto, és uma viúva horrível: casas-te e descasas-te do dia para a noite e da noite para o dia. Se ainda fosses uma viúva caiada de preto-luto: não, quando te decides mostrar trazes um vestido branco com ornamentos ondulantes de dourado, irradias um perfume que me faz ajoelhar extasiado. Depois vais-te assim de repente, e deixas o cadáver horrendo da graciosidade do teu odor.
Se ao menos fosses estável, mas és tão estável como uma jangada russa no gelo do oceano que insistes em trazer para me afogar. E podias mostrar respeito e seriedade pelo luto alheio, mas vens e abraças-me com esse cheiro a ópio e a orgasmo pouco suado, e eu, coitado, indefeso, sugo o ópio da tua heresia.
Para dizer a verdade, inspiração, és uma merda, apareceste mesmo agora que te estava a amaldiçoar, e é por isso que deves ser divina, tens o sarcasmo dessa divindade que aparece para humilhar.

Pois. Pensando bem, não pois.

Oprimo-me as opiniões
Apago-as e sepulto-as nos porões
Horripilantes da minha alma.
Com elas presas apego-me na calma
De o meu impiedoso dedo não ter de apontar.


Porém
Após a calma suplico a tempestade.
Profiro opiniões como trovões
Troam rompendo as brumas
Como me rompem a sanidade:
Pois ordenam-me para as apregoar
E logo a seguir se contrariam num arrependo.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Contradigo-me tanto que começo a achar que tudo é uma contradição. Porque o tudo pode ser e não ser, depende do que eu quero que ele seja.
De facto, penso que nunca assisti a nada tão próximo da realidade como as contradições, realidade que em si mesma é uma contradição, é real e irreal.


Contradisse-me outra vez. Vejo melhor o mundo.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Arranha-se a guitarra,
Arrasta-se a errar
Na ferrugem do seu ruído.
Berra em alarido,
Que nas suas cordas se amarra!


Contudo,
Tão belo é seu falar
Que melodia, o seu arrastar,
A harmonia deliciosa
Das suas notas e barulhos.
Sua música sedosa
É mãe de meu e mais orgulhos.


Assim é amar:
Deixar-se perder no chinfrim
Que não deixa nunca de soar
À doirada cantiga do alecrim.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Aos seus pés.

Estava eu a enfiar
Cordões nas sapatilhas,
Ansioso por as agradar,
Como se elas não fossem minhas.


Era num compasso cuidado
Que as apertava, delicado
Para que elas corressem milhas,
As minhas, e eu observasse sentado
Extasiado
Pelo andar das minhas sapatilhas.


Entrelaçava-os pelas anilhas
Com carinho e servidão
Para que pisassem milhas
(As minhas)
E eu, esperando, amasse as suas pegadas no chão.


(As minhas)


Uma noite, em suas viagens
Corriam, velozes, o meu caminho
E, ansiosas, sem intenções ou travagens
Pisaram um senhor que morreu, já velhinho.


Fugiram com os seus cordões.


(Os da justiça)
Cuspiram-me na prisão,
E dei-lhes a razão, que a tinham.
Mas fui descalço, indefeso,
Era lá tal o frio, que aos meus pés perdi o peso
E ainda hoje, mortos, se definham.


As sapatilhas e os seus cordões
Lá me foram visitar, aos meus serões
Tive, enfim, que lhes dizer
Que já não tinha pés para novas milhas conhecer.


(As delas)

domingo, 6 de janeiro de 2008

Desmoronar

Havia um muro
Imóvel, de cimento
Que tornava seguro
Um passeio cinzento


Mil gentes acompanhou:
Ora as encobriu do sol ardente
Ora as abrigou da chuva poente
E nunca vacilou.


Um dia lhe apareceu um senhor
Perguntando na sua voz de rancor
“Que guardas muro?”
“Guardo as pessoas e o seu futuro!”
“Do outro lado…?”
“Das pessoas guardo o meu fado.”


O senhor, cobiçoso, o tentou saltar
Mas o muro, elevado, o ignorou,
O tentou perfurar
Mas o muro, espesso, o desprezou.
Por último, tentou conversar
Mas o muro, mouco, o contrariou.


Então,
Aos homens se acudiu
E, esquecendo chuva e sol
O torturaram até que caiu,
E se confundiu naquele solo mole.


O homem chorou, desgraçado
Que aquele fado
Vidente, nada lhe tinha para contar
Senão a história do muro que acabava de derrubar!


E o passeio se tornou silencioso
De pessoas, sob aquele sol furioso.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Curiosidade.

O homem anseia por conhecer o desconhecido, por segredar tudo o que há para segredar (embora nunca o vá conseguir), o homem quer ter todo o conhecimento. O homem ama, investiga, tenta, vive, continua a viver, continua a amar, depois de tantas tentativas falhadas, o homem fala, ouve, vê, orgulha-se, desilude-se, contenta-se, entristece-se. Enfim, um rol interminável de acções que o homem toma e retoma.

A essência do homem é a curiosidade. Sem curiosidade o homem não seria homem, porque não tentaria nunca perceber porque é homem. Só com curiosidade me consigo explicar amor, o primeiro ou após inúmeras derrotas, o conhecimento, as vontades, as sensações, a própria vida é uma curiosidade do homem, que foge a sete pés da morte por isso, porque a curiosidade o incentiva a esperar algo mais: a vida é vivida para que cada um de nós consiga saber ou conhecer mais, e por isso é que rara gente desiste, em qualquer lado qualquer coisa se aprende. E apenas por isso.

O homem vive porque é curioso, aliás, mesmo depois de morto o homem é curioso.