Morreu a Tia Ana,
Levaram-na as parcas lágrimas
De quem a queria e não sabia.
Morreu hoje ou ontem a Tia Ana
Não interessa quando
Porque a levaram e não volta
Não interessa quando.
Respirava curvada a tia Ana
Corcunda da vida
Que a levava em campos e searas
Onde rezou e voou
Suou a cada vigorosa foiçada
Que cortava bucólica o dourado do seu trigo
O dourado da vida que foi dela e de mais ninguém
Pois só se curvou a si.
Parte sozinha
Queimam menos os adeus assim
Do que o sol que antes lhe furava as costas
Em romarias e cantigas
Com que se ceifava o centeio
Tanto que ela plantou
Como a mãe que não foi
Embora não tenha tido
Acredito que não tenha tido vagar
Para cozer nesta primavera que não verá
O pão que há muito coze e pouco come (para o dar).
Partiu e cá deixou o que é dela
Foi-se ela.
Tia Ana perdoe-me esta vaidade
Perdoe-me não a chorar
Perdoe ao mundo
A folia com que não a levou
A alegria com que nunca transbordei
Como as suas rugas o faziam por nós.
Perdoe-nos e àqueles que viram em si
Alvo de misericórdia e não flecha
Perdoe-nos e ensine-nos a viver
De canções e enxertias
E ensine-nos a adormecer
No silêncio com que a Tia Ana o fez.
Porque a seguir à tia vão os outros
E a seguir aos outros vai o mundo.
Assim um dia a hei-de abraçar
Como nunca sequer pensei
Sob a nossa gélida lápide.
23/02/2008
1 comentário:
Uau.Este poema está super complexo.Está óptimo.Parecido aos que tu fazes na temática mas escrito de uma maneira diferente, espectacular.Evolução na minha opinião.Parabéns génio.
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