segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
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Ou seja, a rotina dá vontade de a viver só para desfrutar as suas quebras.
Ou também se pode viver de quebras e desejar a rotina. Mas viver de quebras também se torna uma rotina..
domingo, 30 de dezembro de 2007
Acompanho o envelhecer
Dos tempos que já não passam:
Caminhamos, conversando
As circunstâncias que se não embaraçam
De serem sempre as mesmas.
Conversamos recordando
O colorido amanhecer,
Quando acordávamos cantando,
Contentes, inconscientes
Que tornaríamos a desejar
Tais manhãs nunca as mesmas.
Acompanho-o,
De custoso andar,
E as conversas são sempre as mesmas.
Contudo,
Aborrece-me o acanhado envelhecer.
Suspiro uma desculpa apressada
Para que seja eu a acompanhar-me
E não a sua conversa cansada.
domingo, 23 de dezembro de 2007
Evolução
Evolução
É a moldagem do mundo,
Uma simbiótica sincronia,
Um respeito sem fundo
Por essa natural harmonia
Parca em soberania e escravidão.
Assim é a mãe natureza:
Os mortos não chora,
Saúda-os na certeza
Com a que os rebentos comemora.
Mas desevolução
É do que mingua o homem:
Os chãos que calca,
Cancerígeno, emudecem
Encontrando, contudo, consolação:
Os homens se desfalecem
E os chãos hão de sonhar sem que eles os tomem.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
Destino
Pelo sucesso do meu destino
Envelheço ensombrado,
Não me o deixo indagar franzino,
Sonho-o intemporal, louvado.
Fecho os olhos e percorro-o
Sem me atemorizar
Se no meu presente morro,
Desde que no destino que desenhei
Não pare de deambular
(É como tomar o ópio que plantei).
Por isso utopico o falhanço
Que seria não ver o meu desenho real,
Que me mataria num crime banal.
Rejeito o falhanço
Porque do futuro me lanço
Ao presente certezas inevitáveis
Nas quais vivo divino, imperial,
Não hoje, mas em amanhas impalpáveis
Pormenorizados à exaustão
Nesta corrupta previsão.
E assim, lenta e fatidicamente, aumenta o fosso
Entre a incerteza e a necessidade que me atravessa o pescoço.
Vivo ensombrado pelo meu sucesso.
Serei só eu?
Não sei, mas o sucesso é só meu.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2007
Já ninguém se senta a pensar,
Não rende.
E mesmo que rendesse
Seria pensamento em massa, daquele que se vende.
Preferimos ter trabalhos, alegrias, objectivos ridículos,
Impensáveis
Do que sentar a pensar
Porque é que os ridículos são louváveis.
A culpa não é do televisor, da escola, do jornal
Que não nos querem a pensar.
È antes da nossa preguiça banal
Que, de mente vendada, isto não quer lembrar.
E havemos de morrer sem pensar
Havemos de nascer a seguir a mãe e morrer a seguir a morte, viver a seguir a maré,
Pois seguimos sem pensar,
Curvados sob qualquer pé.
Se nos sentássemos a pensar
Percebíamos que não é do homem pensar.
Pensando melhor, talvez não pensar
Torne mais feliz
A vida que se quer feliz,
Pois quem não pensa não erra.
Por isso o homem é perfeito
Não erra e não pensa com defeito,
Pensa num comum proveito,
Tomando o exemplo da proveitosa guerra.
Rectifico todos estes devaneios:
Quem pensar que não se deve pensar
È que está a pensar bem.
(Post Scriptum:
Que parvoíce,
Eu nem as penso!)
terça-feira, 18 de dezembro de 2007
Falso.
Está o mundo amarelo
De tanto sorriso trajado:
Longo, decotado,
Como um vestido em bailado,
Desliza, a dança a sorver,
Dança, os sapatos a lamber.
O mundo está amarelo.
Só me resta dizer:
“Que vestido tãão belo”.
O mundo está amarelo, adoeceu
A sorrir um destes dias.
Ah, mas… Ironia das ironias,
Que vestido belo trago eu!
domingo, 16 de dezembro de 2007
Marcha fúnebre
Apreciem, como eu, o silêncio
Do adeus carnal:
Um viajante
Deve, sobretudo, dormir em paz
Para que o caminho o encante
Sem ter de olhar para trás.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2007
sexta-feira, 7 de dezembro de 2007
Escravidão
Mais reais que reis:
Rói-os o suor,
O esforço a carvão.
Não lhe sabem a razão.
Há escravos
Que se reflectem reis:
Em vez de suor,
Irradiam perfume,
Vêem-se reis e são reis do negrume.
Não digo que os escravos
Não possam ser reis.
Mas guardem o suor!
Um rei não pode reinar
Sem reinar o seu suar.
domingo, 2 de dezembro de 2007
..
De ciúme indolor
Te vejo flutuar
Como a lua flutua no mar
Distante.
E tal é teu olhar
Dos olhares senhor
Que nesse dançar
Me torna ondulante.
Ah tão pequena
És e me tornas a mim
Com esse teu olhar
Dos olhares senhor
Que me faz minguar,
Pequena Leonor.