quarta-feira, 31 de outubro de 2007

"Achas que algum dia" perguntei "vamos conseguir sonhar o mesmo, desejar da mesma forma?"
"Duvido."
"Explica-te."
"Repara: Tu és sentimental e eu sou carnal. Tu finges e achas-te, mesmo que em ti não te acredites, achas-te um mártir e um profeta, enquanto que eu sou sincera comigo. Tu achas-te diferente, aliás, tu mentes. Pela tua vontade, cada teu respirar cheirava a perfume, e pela minha, sabes bem que cheirava a verdade. Tu adjectivas-me e eu sintetizo-te. Tu desejas pelo teu egocentrismo e eu desejo para satisfazer o teu ego, tu vives para contar o que viveste e eu vivo para recordar o que viverás.
No fundo, tu matas-te e eu vivo-te."
E o soar da lucidez das tuas palavras desconcertou-me.


****

Reflecti mais tarde, reflecti e descobri, descobri um reflexo das tuas reflexões no meu próprio reflectir. Descobri que foges, mas até a tua fuga te dá razão. Descobri que tu não estavas a ir, e nunca vais, ao cerne da questão. Da questão retórica.

E por isso é que és a minha consciência.

1 comentário:

Anónimo disse...

Muito bem conseguido, o contraste entre a pessoa e a sua consciência. E esses momentos de reflexão pelo meio ficaram muito bem. Mais um excelente texto! :)