"Achas que algum dia" perguntei "vamos conseguir sonhar o mesmo, desejar da mesma forma?"
"Duvido."
"Explica-te."
"Repara: Tu és sentimental e eu sou carnal. Tu finges e achas-te, mesmo que em ti não te acredites, achas-te um mártir e um profeta, enquanto que eu sou sincera comigo. Tu achas-te diferente, aliás, tu mentes. Pela tua vontade, cada teu respirar cheirava a perfume, e pela minha, sabes bem que cheirava a verdade. Tu adjectivas-me e eu sintetizo-te. Tu desejas pelo teu egocentrismo e eu desejo para satisfazer o teu ego, tu vives para contar o que viveste e eu vivo para recordar o que viverás.
No fundo, tu matas-te e eu vivo-te."
E o soar da lucidez das tuas palavras desconcertou-me.
****
Reflecti mais tarde, reflecti e descobri, descobri um reflexo das tuas reflexões no meu próprio reflectir. Descobri que foges, mas até a tua fuga te dá razão. Descobri que tu não estavas a ir, e nunca vais, ao cerne da questão. Da questão retórica.
E por isso é que és a minha consciência.
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
terça-feira, 30 de outubro de 2007
Supermercado
Conserva-te fresca
Nessa embalagem grotesca
E espera que eu te encontre
Nessa prateleira
Onde o teu horizonte
È uma fila inteira
De outras iguais a ti.
Dica: Sorri.
segunda-feira, 29 de outubro de 2007
The noose
A balançar
No abismo da sua abominável sentença,
Para que aguente a desavença
Que é de si própria,
A vida aclama o amor
Para que a venha salvar.
Até a alma berra
No seu desespero amador
Em desesperar,
Berra e abana a Terra
Com aquele bávaro suplicar
Ao amor que tarda em a agarrar.
À angústia foi abandonada
Quando reparou que caia amordaçada.
(Sentiu o silêncio do fundo no seu final segundo e soube que ao amor sorria, à sua utopia.)
domingo, 28 de outubro de 2007
Bom dia
Frequento
A indiferença falante,
O afável fermento
Que alimenta o meu interesse enfezado.
Fluo sem o que me rodeia
E de mim me faço infante,
Nasci infectado
De egocentrismo fatal,
Mas afortunado.
Infeliz infiel animal.
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