terça-feira, 25 de março de 2008


Na Páscoa renascem os mortos
Animam-se as cinzas ao vento
Remoinham, eternas, ao raiar
Tímido e efémero da vida.
Colorem o desabrochar das camélias
Baptismo de volúpia, lento
Cobrem-nas de passado, de recordar
Iguais árias de aurora e alento.
Que nesta nascença enternecida
As camélias olvidam o que foram
Que já mil cinzas acomodaram
Que já mil fogos as exultaram
E as levaram de antera em antera
A ensinar a Primavera


Que renasce dentro de mim
E desperta os meus mortos.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Tenho sono da vida
Bocejo-lhe os dias
Neste travesseiro de sonhos
Que vai desaparecendo comigo
Sob os cobertores em demasia.

Volto-me e reviro-me
Revolto-me da vida
Que me dá sono
E me salga os lençóis
De baba, onde banha
A minha monotonia.

Suspiro o desespero
Penso posições, mão de lado,
Enroscado
Joelhos no queixo, enfim, em vão.
E neste febril movimento
Deliro comigo
A viver.

Pois a vida adormece-me
E me prega as pálpebras
À testa que entretanto
Sua de admiração
À almofada, ao corpo
À vida, ao sonho.
Vagueia frenética
Sem me deixar concentrar
Quão o desejava!, em nada mais
que nada.

Só quando desisto
É que me adormeci
Livre de sonos, vidas
Salvo de mim.

quarta-feira, 5 de março de 2008

A passara
Apaparica
As crias
E canta
Alegrias.
Quieta fica
Manta
Do ninho
Para que nenhum passarinho
Queira voar sozinho
Em falta dela.


Cansada
Eleva-se bela
E as crias
Chilreiam por ela
Mas logo esquecem
Quando uma acanhada
Cai em euforias
Sem voar
A guinchar.
Querem todas saltar
E só no ar
Se enfurecem
De não esperarem para perguntar
Para que eram as asas
Que ao corpo aterrado se colavam rasas.







(seeya)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

E o sol serena
As árvores espreguiçam-se
As pedras amolecem
O ar colore-se
As poucas flores
Sopram este odor
Que aveluda, amena
A tarde.
Adormece a voar
O repuxo do chafariz
E as gotas que pararam no ar
Quietam-se os passarinhos
Não o seu timbre
Deixa-se ao sono, o mundo
Para te ver sorrir.






*Seven days in sunny june - Jamiroquai*


domingo, 24 de fevereiro de 2008

Morreu a Tia Ana,
Levaram-na as parcas lágrimas
De quem a queria e não sabia.
Morreu hoje ou ontem a Tia Ana
Não interessa quando
Porque a levaram e não volta
Não interessa quando.


Respirava curvada a tia Ana
Corcunda da vida
Que a levava em campos e searas
Onde rezou e voou
Suou a cada vigorosa foiçada
Que cortava bucólica o dourado do seu trigo
O dourado da vida que foi dela e de mais ninguém
Pois só se curvou a si.


Parte sozinha
Queimam menos os adeus assim
Do que o sol que antes lhe furava as costas
Em romarias e cantigas
Com que se ceifava o centeio
Tanto que ela plantou
Como a mãe que não foi
Embora não tenha tido
Acredito que não tenha tido vagar
Para cozer nesta primavera que não verá
O pão que há muito coze e pouco come (para o dar).
Partiu e cá deixou o que é dela
Foi-se ela.


Tia Ana perdoe-me esta vaidade
Perdoe-me não a chorar
Perdoe ao mundo
A folia com que não a levou
A alegria com que nunca transbordei
Como as suas rugas o faziam por nós.
Perdoe-nos e àqueles que viram em si
Alvo de misericórdia e não flecha
Perdoe-nos e ensine-nos a viver
De canções e enxertias
E ensine-nos a adormecer
No silêncio com que a Tia Ana o fez.


Porque a seguir à tia vão os outros
E a seguir aos outros vai o mundo.
Assim um dia a hei-de abraçar
Como nunca sequer pensei
Sob a nossa gélida lápide.





23/02/2008

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Comboio


Passageiro de janela,

Dos prados que passam
Na pressa
Deles, talvez minha.
É como uma tela, aquela janela
Branca e canso-me dela:
Não há cor na carruagem
Que pinte os prados que passam.
Mas eles passam.

A carruagem:
Bancos de pó,
Cabeças poucas
À janela,
Na pressa
De ver os campos que passam
Pelas esperas moucas.
Deles, talvez minhas.

O bilhete
Não houve quem mo picasse,
O revisor estava à janela
À espera que a espera passasse:
O picador era dela.

Mas desistiu, desistimos. As janelas eram pintadas na parede.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

enfim.


Asfixia-me o meu negrume,

Cruel me calca e desfaz
Fragmentos do meu corpo nefasto.

Enterrado arrependo
Qualquer memória ou feliz rasto
Que, como a paz da minha mortalha,
Suplico que se esfume
No fumo da fornalha
Onde vou ardendo.

E, cremado, arrependo
Nunca antes ter desistido
Do que ia sendo,
Do que não tinha perdido.



*
Hours Of Wealth - Opeth*